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SUYEN A.
MIRANDA
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Mentiras sinceras? Digo
isso pela experiência vivida na área da saúde. Os profissionais experientes
sabem dizer – com base em seu feeling – o que dizer a certos pacientes e mesmo
familiares quanto a um quadro clínico. Há uma discussão eterna: falar ou não
falar sobre o grau e intensidade de uma doença ao paciente? Colocando em termos
práticos: para um paciente com câncer, mas que pode conviver com a doença por
muito tempo sem a perda da qualidade de vida – como é comum nos quadros de
câncer de próstata – vale dizer detalhadamente o problema ou apontar que há
algo que requer cuidados maiores, bem como toda uma posologia que precisa ser
seguida à risca para garantir qualidade no dia a dia, mas sem “abrir”
claramente o que se trata? Recentemente
acompanhei isso pelo olhar do médico, do profissional da saúde. Ele me contava
de um paciente exatamente com a condição que descrevi acima. Câncer de
próstata, mas com quadro irregular de diabetes. O tratamento deu devido peso a
ambos problemas, inclusive enfatizando mais a diabetes, que atingia picos de
descontrole. O câncer vinha sendo tratado, e isso se prolongou por cinco anos.
Neste tempo, o paciente viu a segunda neta nascer, viajou para o Oriente (sonho
de rever parentes deixados na Síria no tempo da guerra), namorou a esposa com
brindes não alcoólicos, passou o réveillon à beira da praia com a família e
deixou esta dimensão terrena há um mês por conta de um acidente de trânsito. Meu
amigo médico sentiu a perda do paciente com menos dor no coração porque ele
aproveitou intensamente a vida, seguindo sua prescrição e colocando em cada
medicamento ingerido a vontade de viver, não importando qual o problema que
iria um dia causar o seu fim. Não foi o paciente que chegou cheio de problemas
e despejou sobre o médico – ele omitiu do meu amigo os problemas que tinha por
ter perdido pessoas queridas em meio a um conflito e que sentia a culpa de ter
deixado todos sem notícias, sem qualquer informação – e guardou a receita
médica no bolso. Ele se comprometeu com a vida e com o sucesso do profissional
que o atendia; meu amigo se comprometeu em fazer do tratamento a melhor
experiência possível, sem mentiras, sem ilusões, mas com a parcimônia nas
palavras e atitudes tanto para ele quanto para os familiares. Pela
experiência de meu amigo, informar um quadro clínico pode selar o destino de
certos pacientes. Dizer “câncer” a alguns significa uma motivação para lutar e
viver; para outros é uma sentença de morte anunciada. Minha
experiência pessoal neste tema é dolorida, mas serve como fechamento para este
texto. Em
1976 ouvi do médico da minha mãe que ela sobreviveria por, no máximo, seis
meses. Eu ouvi a frase junto com meu pai, e na época eu tinha 12 anos. Não
preciso dizer que contei os 180 dias possíveis da vida dela com medo,
insegurança, acordando de noite pra ver se ela estava ainda viva, se respirava.
No dia seguinte acordava com muito sono, mas aliviada em saber que ela estava
viva, mesmo com todas as seqüelas que a doença deixou. Os
180 dias passaram, mas eu continuei com o medo, com a sentença da morte
rondando a minha cabeça. Um
ano depois daquele vaticínio liguei para o consultório do médico para marcar a
consulta para minha mãe – ele era disputadíssimo, e o tempo de espera para uma
consulta particular levava até dois meses – e fui informada que ele havia
morrido há um mês daquele dia, num acidente durante uma pesca submarina. Minha
mãe viveu 29 anos depois daquele “decreto de morte”, e recuperou boa parte dos
movimentos; viajou comigo para Cuiabá, reviu parentes, brindou diversos
aniversários com caipirinha de pinga (que faço muito bem), comeu feijoada e
tudo o que queria sem culpa ou restrição, escreveu um livro, deu muita risada,
viu meu sucesso e progresso; e se foi desta dimensão em 8 de janeiro de 2005. E até que ponto a verdade de alguém é uma mentira para mim ou para você? Simplifique mais
Vem
a calhar com o fim do ano, mas pode ser exercitado a qualquer momento:
experimente simplificar a vida. Não quero dizer que deva jogar tudo para o
alto, gritar com o chefe e sair batendo a porta. Simplificar significa deixar a
coisa (ou as coisas) mais simples, com menos desperdício de energia,
preocupação, tensão – para dar mais espaço a alegria. Simplificar
parece simples para algumas pessoas, no entanto a algumas isso parece
dificílimo, penoso. Normalmente, quem tem grande apego e dificuldade em lidar
com mudanças resiste a processos mais simples, menos intrincados ou
ritualizados. Para estes indico que a simplificação deve começar gradual, uma
coisa por vez, mas que tenha relevância para a pessoa. Para
alguns, indico simplificar os rituais de descarte de objetos, desde o lixo
cotidiano a roupas que raramente são usadas, jornais que não foram lidos (e
certamente estão desatualizados). Simplifique a gaveta de um armário removendo
coisas desnecessárias – até para que haja espaço para o novo – e veja quantos
objetos e lembranças interessantes trazem memórias gostosas, que garantem
momentos simplesmente incríveis. Depois
certamente outras coisas virão: acordar de manhã com menos estresse, podendo ao
menos observar o amanhecer. Abraçar as pessoas que se gosta simplesmente por
expressar afeto. Perceber que todas as pessoas tem as mesmas necessidades, e
fazem igual todos os processos fisiológicos (que por vezes padecem em rituais
complicadíssimos que poderiam ser simplificados para a felicidade do
organismo...), portanto, simplifique os protocolos para dizer do seu afeto e
carinho. Simplifique
sua vida financeira adquirindo o que é necessário e evitando processos “bola de
neve” de dívidas que geram juros, multas, custos abusivos. Deixe cartões de
crédito em casa, cheques e experimente sair com dinheiro, na quantidade
necessária para o que é preciso, sem margem para gastos extras. Se você me
perguntar sobre as emergências, que requerem mais dinheiro, eu pergunto:
acontecem tantas emergências assim no seu dia-a-dia? Se verdade for, repense
suas estratégias cotidianas. Simplifique
a vida porque a verdade é que a vida é simples, e quanto mais percebemos isso,
mais ela se torna agradável, gostosa e boa de viver. Só isso abre a porta do
que entendemos por felicidade, construída dia a dia de forma simples, mas
eficaz e que gera o nosso maior desejo: ser feliz. Só isso
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