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Qualidade de vida começa de dentro para fora
Viver
bem é o desejo de boa parte das pessoas em diversas culturas. Digo isso porque
há indivíduos que não conhecem esse conceito e ambientes em que a sobrevivência
não é sequer garantida. Portanto, falar em qualidade de vida pode parecer uma
pretensão. Considerando que o ser humano deseja a felicidade, assumiremos que
ter qualidade na vida pode ser um passo em direção a um objetivo, capaz de nos
fazer renovar a cada dia: o de ser feliz.
Ser
feliz é algo considerado por muitos como impossível, seja porque acredita-se
que a felicidade inexiste, seja por conta de tantos contrastes que significam
dor e sofrimento num mundo que teria todas as condições de abolir isso
definitivamente. Entretanto, podemos considerar que viver bem é um caminho
importante para construir o conceito de ser feliz, individualmente ou no âmbito
do grupo social.
Um
ponto importante é pensar que a qualidade de vida está relacionada com
conhecimento de informações capazes de proporcionar uma vida melhor, mais
saudável e menos estressante. Nem sempre esses elementos se cruzam com a
questão financeira, principalmente hoje, quando a informação está bem mais
barata do que custou ao longo de ao menos dois milênios. De certa forma, o que
nos faz usar essa informação, transformá-la em conhecimento e aplicá-la no
cotidiano é a atitude, o pôr em prática.
Consideremos
que temos livre arbítrio e capacidade para implementar gradualmente mudanças
para nosso próprio bem-estar. Sendo assim, vamos refletir sobre o que temos de
mais importante e fundamental para que a experiência do viver bem se
concretize, e com esse pensamento chegaremos ao ponto inicial da trajetória: a
preservação de nós mesmos, pois se não existirmos nem poderemos pensar em
qualidade para nossas vidas. Somos o ponto inicial, e merecemos todo o cuidado
que isso implica.
Para
viver é fundamental ter o ar, respirar. Alimentos e água são também
importantes, é certo; mas sem cinco minutos de ar as sequelas serão quase
irreversíveis, a vida terá findado. O respirar é certamente o aspecto mais
relevante na nossa vida, e noto com pesar que tem sido gravemente
negligenciado.
Parece
que, para alguns, respirar é uma bobagem que toma tempo, assim essa função é
posta de lado, feita automaticamente, sem nem sequer pensarmos no ar que está
sendo inalado – se no trânsito, na poluição, no meio da radiação dos
computadores e outros eletrônicos. Respirar representa mais da metade da
qualidade de vida, pois consegue trazer calma, saciedade, dinamização corporal
e relaxamento de forma inteligente. Respirar não custa nada, literalmente.
Depois
do respirar vem a hidratação e o alimento, outros dois itens que, quando
selecionados criteriosamente, geram satisfação, saúde, inteligência, harmonia
de dentro de nossos corpos para o mundo externo. Já ouviu dizer que a pessoa
está zangada porque está com fome? Podemos dizer o mesmo de quem está
desidratado, sedento. O raciocínio torna-se lento e a criatividade limitada
quando nosso corpo não tem condições de promover trocas eletrolíticas, o que
requer água e sais minerais. As células no nosso corpo não são mais uma simples
abstração, suas funções estão comprovadas e altamente estudadas
cientificamente. Requerem atenção, água, alimento e ar para funcionarem
equilibradamente, como numa orquestra regida por nossa vontade – quando a nossa
vontade é de viver bem e buscar ser feliz conosco menos, pelo menos.
O
que entra no nosso corpo deve ser criteriosamente analisado: seja o ar, seja a
água, o alimento e o pensamento. Precisamos ouvir tudo? É recomendável.
Precisamos assimilar tudo? Não necessariamente. Podemos filtrar o que nos serve
e o que não nos serve, afinal temos discernimento suficiente para distinguir o
que nos faz mal ou bem na alimentação, correto? O mesmo pode ser aplicado ao
que entra no nosso coração e na nossa mente.
Por
vezes, deixamos entrar no corpo elementos nocivos, em relação aos quais não
estamos resistentes e com os quais não estamos preparados para lidar, sem que
possamos processar e eliminar adequadamente, tal como fazem as células de nosso
corpo constantemente. Deixamos que palavras rudes nos magoem, e não processamos
isso de modo a evitar resíduos no coração. Os resíduos formam, por vezes,
paredes quase intransponíveis que nos tiram o sono, a calma, a tranquilidade
até para aproveitar as coisas boas da vida. É fácil notar isso quando estamos
numa situação agradável e a leve lembrança do problema que criou essa parede
faz do cenário idílico um horror, gerando pensamentos desagradáveis capazes de
produzir azia, insônia, palpitações, dores generalizadas... formas físicas do
sentimento de angústia e ansiedade.
Temos
uma memória prodigiosa pela complexidade de nosso cérebro e cerebelo. A riqueza
das sinapses é capaz de nos fazer memorizar textos longuíssimos com perfeição –
basta pensar nos atores em lindas atuações plenas de emoção aliadas a um
processo de memorização resultante de um treino gradativo – e por vezes
desperdiçamos essa capacidade usando-a na retenção de eventos desagradáveis,
que nos ferem profundamente e que nenhum medicamento é capaz de aliviar. Podemos
escolher o que colocamos para dentro de nosso corpo, como já havia dito nos
parágrafos anteriores. Evitamos ambientes poluídos, ou ao menos não respiramos
profundamente como num parque e sempre pelo nariz, pois que é o órgão adequado
para filtrar o ar para os pulmões: uma decisão nem sempre consciente, mas que
pode se tornar automática com algum empenho. Evitamos alimentos inadequados e
água contaminada, e se assim fazemos podemos evitar pessoas, vibrações e
comentários contaminados. Para isso, um passo fundamental é observar como
somos, o que vibramos e o que dizemos para o mundo.
É
dito que mais se aprende não pelo que é falado, mas pelo que é mostrado.
Concordo completamente: aprendemos pelo exemplo. A criança se interessa pela
leitura vendo os adultos com revistas, jornais e livros nas mãos. Dali ela
começa a perguntar o que existe naquelas folhas que tanto prende a atenção das
pessoas, então se interessa pelas letras e com a curiosidade começa a explorar
o mundo do papel escrito – ou da tela colorida com conceitos, como nos
computadores. Dificilmente se vê criança aprendendo a ler porque os pais apenas
sugeriram que ela fizesse isso.
Nós
somos exemplos constantes para quem nos rodeia: familiares, amigos, superiores,
subordinados, vizinhos, colegas. Formamos imagens de nós mesmos para os outros por
meio da nossa conduta e da nossa seleção de informações. Exercemos o livre
arbítrio de decidir o que queremos para nossa vida – e criteriosamente
inconscientes alguns criam desculpas para justificar suas escolhas como se não
tivessem escolha alguma, o que acaba por se revelar uma fonte de enganos
pessoais que contamina nossa essência, nossa alma.
O
mundo pode ser complicado ou fácil, seguro ou inseguro, conforme o olhar de
cada pessoa. No entanto, olhares coletivos têm o poder de transformar uma
realidade circundante. Já reparou que quando um grupo começa uma postura de
qualidade outros notam e iniciam mudanças graduais em busca desse padrão? Isso
pode ser provado atualmente pela mudança de paradigma em relação ao cigarro que
houve nos últimos 20 anos, quando ele passou de símbolo de status e sucesso
para algo violentamente rechaçado pela sociedade. Esse movimento começou com
alguns, que somaram-se a muitos outros, e tornou-se palavra de ordem. E pensar
que na década de 70 as pessoas chegavam a associar atividade esportiva ao fumo.
Com
isso voltamos ao ponto inicial da trajetória: o indivíduo. Ressalto isso, pois
muitos têm mencionado o poder dos grupos como detentores da informação e
conhecimento, detentores de poder; no entanto todo grupo é formado por
indivíduos.
O
que cada um de nós faz, pensa, conduz é o que monta esse tecido de sociedade
que rapidamente está se modificando por conta da vontade individual de um
momento mais feliz, ao menos para si mesmos. Esses aspectos de mudança são
resultantes de indivíduos empenhados em romper com paradigmas ultrapassados que
delegam a felicidade a outrem e procuram a vitimização como forma de
descarregamento de culpas por escolhas inconscientes capazes de ferir mais do
que construir.
É
o que sai do corpo do indivíduo – o ar eliminado, a palavra expressada, a
expressão consciente – que cria o ambiente da sociedade para que a melhoria
contínua prossiga, embora em alguns momentos pareçam existir interrupções. A
qualidade de vida começa no um, em cada pessoa, quando consciente da
importância de sua vida que é o centro do universo individual, particular, que
jamais poderá ser recuperada à custa de qualquer quantia, ou com a
interferência de outro indivíduo, seja como for. A qualidade de vida é a maior
conquista, desafio e expressão de capacidade que podemos realizar nesta
passagem pela vida tridimensional, e cabe somente a nós usar do livre arbítrio
para se decidir por fazer dela algo feliz.
Começa
de dentro para fora, sempre.
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